Escritos do Autor
A Voz Total
Sabia, estava a sonhar. Não podia interferir no sonho, mas nada daquilo era real. Se tratava de um país rico em petróleo, um emirato qualquer do Oriente e das Mil e Uma noites, pois havia um rei usando capas de cetim e se atirando sobre enormes almofadas de penas de cisne, príncipes endinheirados rolando em limusinas e comprando inutilidades caríssimas, haréns de belas mulheres, infelizmente invisíveis.

O rei tomava todas as decisões, não saberemos se de sua própria vontade. De vez em quando reunia uma assembleia, conselhos de ministros, conselhos de Estado, coisas assim. Ficavam todos os participantes na expectativa, sem tomar a palavra nem fazer um gesto, a respiração em suspenso, até algum adivinhar pelo semblante do soberano o seu desejo. E o vivaço expressava opinião. Quando acertava, o rei sorria para ele, um sorriso muito fechado. Era suficiente para o sortudo provocar a inveja dos outros. E todos já sabiam o que dizer, repetiam quase em coro o discurso do primeiro, ajudando a sesta real. Se, pelo contrário, o primeiro atrevido dissesse algo fora da sintonia, o ar do soberano ficava ainda mais fechado e o atrevido ruminando medos atrozes. Finalmente o rei dava por encerrada a reunião, ditando as suas conclusões para a acta. Era a voz total.

Acontecia nesse tipo de reunião, portanto, alguém arriscar “sim” e o rei a seguir dizer “não”. Imediatamente muitas mãos se erguiam, pedindo a palavra. Todos para apoiarem aliviada e convictamente o não do soberano. E se alguns tinham dito sim anteriormente, corrigiam o tiro com discursos argumentando a favor do não. Havia pois consensos e mesmo unanimidade: a tal voz total.

Os príncipes assistiam a essas reuniões sem abrirem a boca a não ser para bocejos de tédio. Talvez o pai depois lhes explicasse os diferentes passos dos debates inexistentes e se manifestasse contra alguns dos membros da assembleia. Mas isso era segredo de estado, ninguém conhecia as conversas privadas do potentado. Nem a imprensa, sempre paternalmente repreendida por querer descobrir mais que o devido.

O rei morreu. Todos ficaram à espera, sem ousar uma iniciativa. Os príncipes, demasiado novos mas já prudentes, não se manifestavam. Provavelmente haveria conversas nas intimidades dos haréns. Ao fim de uma semana, um dos conselheiros, mais impaciente ou mais afoito, disse sim. Imediatamente se ouviram vozes diferentes. Uns disseram claramente não, outros talvez, um disse porventura, outro se calhar, outro obviamente, outro imagino… até que dez grupos rivais se criaram, cada um apoiando um príncipe. Os príncipes, despreparados, patrocinaram campos opostos. Como as discussões aqueciam, armas foram afiadas. E ajuda foi pedida ao estrangeiro. Um se ligou à potência do norte, outro à do leste, outro à do sul. A Oeste só havia o mar e as potências estavam longe, por esse lado não houve intervenção nem invasões. Exércitos foram formados e entraram em combate. Todos contra todos, numa balbúrdia total. Houve medianeiros estrangeiros, as ONG da praxe vivendo dos conflitos, reuniões onusianas. Ninguém parava a guerra, pois os beligerantes não aceitavam opinião diferente da sua, ou dos seus interesses. E os príncipes, em nome dos quais se combatia, morriam de tédio nos seus haréns, impedidos de passar férias nos lugares da moda.

Acordei antes de assistir ao cataclismo final. Porque se sabia haver negócios de armas e a procura da bomba nuclear por parte de vários grupos, os mais intransigentes.

Concluí para mim mesmo, com medo de falar alto naquela penumbra do despertar: a voz total se tornou numa cacofonia totalitária de vozes. É sempre assim?


Pepetela





Horror do Vazio
Sei que pode parecer repetitivo, mas afligem-me as megalomanias se apossando de algumas cabeças que assumem responsabilidades em relação a Luanda. Uns tantos acham que merecemos ter uma capital no estilo Singapura ou Hong Kong, com torres de quarenta andares (no mínimo) ao longo do mar. Não é forçosamente para amealhar umas comissões, como imediatamente pensam os nossos cérebros borrados de preconceitos, embora uns tantos aproveitem. Nada de novo, afinal: o mundo está cheio de processos por causa do imobiliário e o cinema e a literatura até já esgotaram o tema. O que me preocupa é muita gente estar sinceramente convencida que isso é que é bonito e assim é que será viver bem. Têm horror ao vazio que nas suas cabeças significa uma praça, um jardim, um parque, um desperdício de espaço que ficaria melhor com uma torre no meio (antes dizia-se arranha-céus, mas reconheço o exagero americano ao inventar o termo, porque os céus não têm costas, são da natureza dos anjos, e ninguém imaginaria um edifício a arranhar as costas de um anjo). Torre é melhor, lembra logo aquelas construções onde se enfiavam os prisioneiros para morrerem lentamente, como a célebre Torre de Londres, ou onde se aninhava o povo da Europa medieval para se defender de ataques. Torre sim, pois os seus utentes/prisioneiros vivem no medo de sair à rua, de viver a cidade, enclausurados e protegidos da miséria que espalham à volta de si.

Queixamo-nos do trânsito na baixa da cidade (não só na baixa, sejamos justos) e nem sempre escapamos de lá cair, porque ali está concentrado mais de metade do capital financeiro e dos serviços do país. E querem fazer mais torres, para atrair mais gente e mais carros? Que as torres vão ter parques de estacionamento, dizem os defensores das ideias futuristas. O problema é entrar ou sair dos parques, porque as ruas estão atulhadas de carros. Claro que há uma solução do mesmo estilo: fazer as ruas da baixa com andares, género auto-estrada em fatias sobrepostas, ou até com viadutos por cima dos prédios, a arranharem as nuvens. Isso seria um arranhanço útil. E já agora peço, façam um túnel por baixo da baía ou uma ponte a ligar o bairro Miramar à Ilha, assim chegamos à praia em cinco minutos, como era há vinte anos atrás. Como de todos os modos a ideia geral é dar cabo da baía e da Ilha, também tanto faz, mais ponte menos ponte… Suponho também que já deve haver negociações para se tirar a Igreja da Nazaré do sítio onde está, a ocupar indevidamente um espaço nobre para mais uma torre. Uma pequena concessão não fica mal, mantém-se a igreja na cave do edifício. A História que se lixe, não foi a lição da destruição do palácio de D. Ana Joaquina? Então continuemos. Neste afã de ocupar todos os espaços, proponho também acabar com o prédio dos correios, bem feio e sem valor arquitectónico por sinal, e já agora com a praceta à sua frente, outro desperdício de espaço. E aquele compacto e azul edifício que serve a polícia? Um quarteirão inutilizado! A polícia pode ocupar um andar da nova torre. Com menos agentes, claro, para se fazer encolher o Estado, assim mandam os compêndios do liberalismo económico, nossa nova Bíblia.

Problema que estamos com ele é que todas essas novas construções vão ter sérias infiltrações de água salgada, pois ali antes era mar. E o mar gosta de recuperar o que lhe roubaram, ainda mais agora com a previsão da subida dos oceanos, como em todas as conferências se apregoa. Vai ser lindo, com as fundações das torres a serem corroídas pelo salitre e os prédios a desabarem. Felizmente para eles, já não estarão cá os responsáveis nem os seus filhos. E os netos dos outros que se lixem.

Pepetela




Os Bonés
Sei que eram outros tempos e com os tempos mudam-se não só as vontades, como dizia o poeta, mas as modas e os costumes. No outro dia, ao ver televisão, reparei que agora se faz uma coisa que a minha mãe me proibira de fazer. Era eu criança e ela me ensinava que chapéu ou boné só se usava ao ar livre, porque foram feitos para proteger a cabeça do sol ou do vento. Era ridículo andar de chapéu ou boné à noite e era má educação entrar em qualquer casa com isso na cabeça. Talvez digam, “Coisas de europeus!” No entanto, se da Europa veio coisa que hoje não serve, também vieram coisas pelas quais nos matamos ainda hoje. Matar, literalmente. Por isso esse argumento desprezivo “Coisas de europeus!” para rejeitar qualquer boa ideia a mim não convence em absoluto.

Tudo isto a propósito de se estar sob um tecto com chapéu ou boné na cabeça, marca de má educação tempos atrás. Hoje, pelo que tenho visto na televisão (que felizmente há muito me libertei de assistir ao vivo a essas manifestações), a moda é ficar de cabeça coberta dentro de salas. E quanto maiores são as salas, melhor para se tapar a cabeça. As pessoas recebem todas boné igual, muitas vezes da cor da t-shirt, os dois impressos com palavras adequadas à ocasião e se sentam em grandes salas para baterem palmas todas ao mesmo tempo para falas que já ouviram mil vezes. Acho mesmo que só bate palmas em uníssono quem tem boné na cabeça. Muitos até dormem nos intervalos entre palmas, mas o boné não lhes cai da cabeça.

Há outra forma de usar o boné, com a pala para trás, mas isso é moda importada dos jovens norte-americanos e como esses estão na crista da onda já não se diz do facto “coisas de americanos!” (pois então, não é agora o mais fiel dos amigos, o que nunca falha nas horas difíceis?). Arrumo pois a questão dos jovens que põem a pala para trás e andam a arrastar preguiçosamente as sapatilhas desapertadas pelo chão, com as bundas cada vez mais salientes derivadas do exagero dos hambúrgueres e ketchupes ingeridos com batatas fritas, tudo bem regado com um frasco inteiro de maionese. Modas óptimas, que fazem bem à saúde, então não vieram do centro do Mundo, que só dá bons conselhos e exemplos?

Falava é dos outros bonés, com a pala para a frente, comprados aos milhares para distribuição gratuita. Geralmente os símbolos impressos referem-se a partidos ou organizações políticas. Raro é o evento do género que não exija os devidos artefactos de homogeneização mental, a t-shirt e o boné alusivo. Para todos estarem da mesma maneira, pensarem da mesma maneira, baterem palmas ao mesmo tempo, fingirem que escutam os discursos sempre iguais, por não haver inovação há décadas. Exagero, reconheço. Porque por vezes há uma frase que transmite ideia nova, propõe uma iniciativa. Mas ela só pode vir do chefe. Por isso o discurso do chefe é aguardado ansiosamente, pode ser que desta vez sacuda a monotonia com alguma ideia nova. Porém, ai daquele que pretenda inovar antes do chefe, esse é um dissidente, não merece o boné na cabeça. Como não tenho estado presente a esses circos não sei se, no caso muito improvável de alguém que não o chefe avançar com uma ideia original lhe arrancam o boné logo ali mesmo na sala ou apenas à saída. É uma dúvida que fico com ela.

No entanto, repito, continuo a achar de muito má educação usar boné nessas salas ou noutras. Com esses exemplos, como vai o professor impedir um aluno de usar boné nas aulas? Receberá em resposta um “vai apanhar bonés!”. Pois é, a apanhar bonés andamos há demasiado tempo. E esses, nem símbolos impressos têm.

Pepetela


(Para a Revista África-21)




O Peso de Algumas Palavras
Permitam-me em primeiro lugar agradecer a honra conferida pela Reitoria da Universidade Agostinho Neto, ao me fazer o convite para proferir esta palestra que eu gostaria bem de merecer o nome de “Oração de Sapiência”, mas temo ser demasiado modesta e ligeira para tal epígrafe. Aproveitarei o facto de hoje a minha profissão ser unicamente a de escritor para me escudar nessa cómoda desculpa em relação a um tratamento de texto que talvez não se coadune inteiramente com a solenidade do momento. Será porventura norma nesta nossa casa que a Oração de Sapiência exija alguma reflexão teórica e respectiva linguagem sobre assuntos relevantes para uma ciência em particular. Balançando-me entre o facto de ter estudado, praticado e ensinado Sociologia, o que indicaria uma comunicação nessa área, e a minha propensão natural de ficcionista em distorcer por vezes factos escrevendo estórias, peço pois a vossa compreensão para a ligeireza e alguma falta de rigor teórico que possivelmente encontrem no meu discurso. Difícil seria acontecer o contrário e acertar imediatamente no tom mais conveniente para uma intervenção estritamente académica.

Entrando no sujeito, decidi, depois de alguma hesitação, falar sobre palavras. As palavras são afinal o instrumento por excelência do escritor, mas acabam por ser também de profissionais de outras áreas, em particular nas ciências sociais. O tema que me propus tratar, à volta das palavras, tem e não tem relação directa com as ciências sociais, sendo proveniente de observações feitas recentemente e outras intuições bem mais antigas que tenho reiteradamente repetido em público, apenas de forma diferente. Falemos pois sobre palavras.

Se me permitem um começo muito terra-a-terra, vou salientar a forma dominadora, quase tirânica, como algumas palavras se apossam rapidamente da sociabilidade, em determinado tempo e espaço. O exemplo mais claro é o da palavra engarrafamento ou trânsito caótico em Luanda, o que vem dar ao mesmo. Actualmente, surge no relacionamento entre pessoas de largo extracto social como uma continuação lógica da habitual saudação. Se perdemos trinta segundos para cumprimentar e saber da saúde do outro, gastamos seguramente mais tempo para nos queixarmos dos engarrafamentos e do trânsito caótico. Esta situação urbana passou a ser uma introdução à conversa, uma muleta para quem tem pouco a comunicar, como já foi antes o estado do tempo, com as referências sobre a chuva ou o calor. O engarrafamento se tornou uma palavra extremamente útil no relacionamento social corrente, cumprindo o papel de gatilho da interação verbal. Tem outras conveniências. Também serve a estratégia pessoal da desculpabilização, pois a nossa proverbial falta de pontualidade encontra agora uma justificação imbatível, com provas possíveis de encontrar mesmo na imprensa internacional. É também razão apontada para cansaço persistente provocando pouca produtividade no trabalho, e mesmo desentendimentos familiares pelo afastamento material criado entre os respectivos membros. Por outro lado, se tornou ocasião privilegiada para assaltos nas ruas à vista de toda a gente e portanto para a criação da psicose da insegurança, enfim, fonte de males e perturbações psicológicas. Não nego razão a muitas destas queixas, mas a opinião pessoal do observador está fora de causa. A palavra engarrafamento, tornada uma das mais usadas na nossa sociedade no dia a dia, explica como uma situação urbana tem reflexos sociais incontestáveis. E, se estudos fossem feitos para traduzir em kwanzas o tremendo prejuízo à economia nacional gerado pelo tempo perdido nos meios de transporte, a palavra ganharia outra dimensão à medida das nossas desgraças.

Nos dias que correm, outra palavra hiper usada é crise. Está evidentemente relacionada com a crise global financeira, originada ou apenas agravada pela especulação e apetite desenfreado de alguns magnatas do ocidente, que acabou por transbordar fronteiras e tocar toda a gente, embora alguns economistas e acríticos pensadores angolanos tenham negado a sua existência, ou mesmo a possibilidade de ela se manifestar entre nós, quando os primeiros sintomas já pairavam no horizonte e a palavra tomava incessantemente conta dos órgãos de comunicação estrangeiros. Alguns entre nós consideraram erradamente que as notícias se referiam apenas às economias mais avançadas, com forte pendor financeiro, enquanto Angola escaparia aos seus efeitos, esquecendo ou não querendo ver que se tratava de uma crise do sistema financeiro mundial e portanto afectando forçosamente todas as economias se regendo pelos princípios do capitalismo neoliberal, como é o nosso envergonhado caso, para não caracterizar o sistema económico-social que aqui se vai fazendo com um adjectivo mais contundente, mas menos digno desta venerável cerimónia.

Crise tornou-se pois a palavra das conversas, em determinado grupo social ao qual acabamos todos por pertencer, depois dos iniciais desabafos sobre o trânsito. No entanto, é palavra que merece sem dúvida maior tratamento, deixando o problema dos engarrafamentos para os políticos e técnicos que os devem resolver. Há três meses participei no Brasil num painel cujo título, curioso, era precisamente “O escritor e a crise”. Evidentemente nenhum autor falou da crise económica e da possível acção dos escritores sobre ela, objectivo provável dos inventores do painel. Pela minha parte, limitei-me a dizer que já o título trazia equívocos, pois, por definição, um escritor é um ser em crise, pelo menos no momento de criação. A arte está indissoluvelmente ligada à procura de rupturas, inovações, correspondendo a momentos de forte tensão de grupos sociais em mudança ou à procura dela, numa palavra, crise. E depois desenvolvi a ideia já conhecida entre nós que toda a literatura angolana, desde os remotos anos do século XIX, se tem alimentado de uma sociedade em crise permanente, seja por causa da colonização e resistência a ela, seja da guerra depois da Independência, seja da situação de reestruturação social actual. E que estávamos de tal maneira habituados a crises de toda a ordem, que esta seria mais uma, apenas diferente, e não seríamos certamente chamados a resolvê-la, apenas a sofrê-la.

Acrescento que a actual crise mundial não vai obviamente encontrar solução aqui, dependentes que estamos da ordem internacional. Somos conhecidos pelo orgulho exacerbado com que nos defrontamos com o outro e a tendência a considerarmos tudo o que nos toca como sendo fundamental, único e de importância vital. Desta vez, porém, nem os mais nacionalistas ousarão colocar Angola numa das premissas essenciais de solução do problema criado pelos outros. Infelizmente para o nosso grande ego, sempre pronto a nos ver como cavaleiros andantes em busca de aventura. Devemos por isso ser humildes e prudentes ao tratar com ela, evitando gestos demasiado audaciosos que só podem neste momento ter más consequências. De qualquer maneira, mesmo se a crise não depende de nós, falamos constantemente dela e vamos usá-la como justificação para muita coisa, como se vai já adivinhando por algumas posições e intervenções públicas. Apesar de tudo de negativo que comporta, se trata de uma bela palavra, forte, rápida de pronunciar, um tiro sonoro no deserto. Querendo, também podemos prolongar a vogal forte, criiiiise, dando um indubitável peso à nossa preocupação com o futuro.

Um único aspecto quero ressaltar neste facto, é que a crise pode ser útil para o futuro. Não serei original, mais uma vez. Outros já tocaram no assunto de a situação com a qual o mundo se defronta ser capaz de estabelecer novos parâmetros para alguns apetites e exageros, obrigando a reformular o sistema capitalista vigente, pois a vertente ultraliberal está totalmente desacreditada. Talvez estes eternos optimistas tenham razão. Embora não haja de facto nada de novo, pois há mais de um século tinha sido claramente diagnosticada pelo hoje politicamente pouco correcto pensador, Karl Marx, o qual sustentava que o capitalismo vivia das crises que periodicamente criava. Assim tem sido, com maior ou menor intensidade, desde os seus primeiros escritos. No entanto, o homem é um ser de memória curta e está sempre a desaprender os ensinamentos do passado, talvez para dar mais razão de ser aos professores, os quais têm por tarefa relembrá-los.

No que nos diz respeito, pode a situação levar a repensar muita da teoria que está por baixo de numerosos actos de governantes e governados, embora normalmente essa teoria se tenha deixado de reconhecer publicamente: refiro-me à ideia, trazida dos tempos coloniais, de que Angola é um país rico. Mesmo se a maior parte de nós não o diz claramente, por já ter vergonha de aparentar uma presunção tão combatida pela própria realidade, pensa-o nas suas conversas secretas com o travesseiro. O convencimento voltou com a euforia dos últimos anos, ao se observar um crescimento anormal do Produto Interno Bruto, apesar de alguns gritos isolados de alerta. Porém, a ideia escondida e falsa acaba sempre por contaminar o processo de traçar planos para o país. A nossa megalomania nacional, verdadeiro traço de carácter, ou, segundo o vetusto Kardiner, um marcador da nossa personalidade de base, provém de julgarmos o país incomensuravelmente rico. Os colonizadores, nos anos sessenta e setenta do século passado, repetiram tantas vezes esta lenda, que ela passou a fazer parte do nosso código genético, por assim dizer, e agora é difícil voltar atrás e admitir o contrário, que somos de facto e por enquanto, apesar de algumas indubitáveis vitórias, um país miserável, incapaz de alimentar suficientemente os seus filhos, incapaz até agora de matar no ovo as diferentes epidemias que nos assolam, incapaz de avançar numa clara política de desenvolvimento sustentado. Mas a crise veio para nos mostrar quanta debilidade afinal apresentamos. E ainda bem. Talvez, se nos mentalizarmos efectiva e definitivamente que país rico é aquele que pode alimentar os seus filhos e prover às suas necessidades básicas sem precisar constantemente de recorrer ao exterior, então estaremos a dar o primeiro passo para sair da situação de subdesenvolvimento em que estamos mergulhados há séculos, situação ultimamente disfarçada, mas mal, pelos arranha-céus de vidros espelhados e planos mirabolantes de viadutos esplendorosos sobre o mar. Infelizmente, essas brilhantes obras de engenharia e arquitectura ainda não saíram das cabeças e competências dos nossos profissionais, sendo sempre de inventiva estrangeira. Além do mais, o que é triste, as grandes obras estão baseadas sobre lixo e miséria, ou convivem paradoxalmente com eles. Por isso insisto nesta matéria de forma cansativa, somos mesmo subdesenvolvidos e dependentes. Só sairemos dessa situação de dependência quando resolvermos os nossos problemas com as nossas cabeças e quando aprendermos a olhar apenas para o espelho em busca de reconhecimento e não a procurar nas televisões ou jornais estrangeiros um magro elogio aos nossos feitos. Ao mesmo tempo que somos orgulhosos nalgumas ocasiões, diga-se de passagem por vezes com razão, também ficamos ansiosamente complexados à espera de um qualquer veredicto exterior, numa contradição patológica.

Voltando ao malabarismo com as palavras, crise é pois a que se segue a engarrafamento na frequência de uso actual, podendo vir a liderar em breve, se de facto o mundo não encontrar rápidas soluções para reformular o capitalismo, na falta de alternativa de momento, ou se nós não tivermos a capacidade de minorar os seus nefastos efeitos com os nossos próprios meios.

Mas há, por outro lado, palavras importantes e que não são suficientemente ditas. Vou pois referir-me a elas em seguida, as que deviam aparecer mais vezes nas conversas e na comunicação social mas, talvez por vergonha (ainda a vergonha!) usamos muito pouco.

A primeira é uma das mais expressivas que conheço na língua portuguesa: ganância. Sonora, vibrante e profunda, por utilizar três vezes a mesma vogal, provavelmente a mais estática das vogais, o “a”. Tem sido ultimamente utilizada nos meios internacionais, não a palavra portuguesa mas o seu correspondente em línguas estrangeiras, como um facto vindo a agravar ou mesmo a originar a actual crise financeira e económica mundial. No entanto, acho que esta palavra está na base do próprio sistema capitalista e a ele estará sempre associada. E a sociedade moderna, chamada muito propriamente de consumo galopante, tem vindo a agravar a sua importância social, transmitindo-a cada vez mais às novas gerações. Hoje em dia já não é raro ver crianças gananciosas, tentando acumular bens ganhos de presente no supermercado ou na loja de esquina, exigindo dos pais compras incompatíveis com os orçamentos familiares. Fenómeno relativamente novo pela sua extensão, se já toca crianças porém, imaginemos então a devastação provocada no imaginário dos adultos.

Nas sociedades tradicionais africanas, a ganância tem sido apontada como uma das causas do recurso ao feitiço, sobretudo contra elementos da própria família, pois esse excesso de avidez pela riqueza se associa imediatamente ao sentimento negativo da inveja, por se não atingir o que se deseja e outros conseguirem. Muitos dos casos que a literatura antropológica nos apresenta como motivo para as práticas de feiticismo tem a ver com estes sentimentos de competição social provocados pela ganância, tentando o invejoso por actos sobrenaturais castigar os que têm algum sucesso económico destoando com a situação do resto da família ou da aldeia.

Mantida em relativo silêncio, a ganância no entanto pauta cada vez mais as nossas vidas. Há pessoas que são tão viciadas nela como outros são na heroína ou na liamba. Quanto mais riqueza têm mais querem ter, açambarcando verdadeiros latifúndios agrários ou amamentando grupos económicos tentaculares, os chamados polvos da nossa economia. As notícias publicadas sobre o assunto pecam por defeito, mas o que vai aparecendo é suficiente para se detectarem as ramificações e associações entre os diferentes centros desses poderosos predadores que um dia saíram do nada para a fortuna, abocanhando tudo o que seja tragável, isto é, que dê lucros, de preferência imediatos. Porque a ganância torna o indivíduo sôfrego e apressado, treinado na arte de somar mentalmente com rapidez, deixando poucos traços ou pistas evidentes no terreno. Se a ganância se tornou num traço característico da humanidade, o que receio acontecer, então não há alternativa e estamos votados à catástrofe, terminando por dar cabo do planeta Terra e de toda a vida no seu interior.

A mesma propensão à acumulação meteórica de riquezas não se coaduna com medidas filantrópicas. Dir-se-á e eu concordo que, na nossa sociedade, ainda é cedo para uma filantropia consistente. A ideia de com o dinheiro ganho se reservar uma parte para melhorar o nível de vida dos outros ou para apoiar a actividade cultural ou científica da sociedade ainda tardará a se tornar numa filosofia de vida. Esperemos que seja apenas uma questão de tempo para que na nossa sociedade se instaure a cultura existente nos países anglo-saxónicos, por exemplo, onde é muito comum pessoas fazerem doações a instituições científicas, culturais ou de apoio social, não para terem os rostos em revistas cor-de-rosa mas por reconhecerem deveres em relação à sociedade que os beneficiou.

E este pensamento leva-nos a outra palavra muito pouco utilizada entre nós, mas que devia merecer uma atenção particular : a palavra ética. Suave, aparentando gentileza, plena de promessas. Infelizmente tão esquecida.

Por contraposição, esta nova palavra sugere-nos um outro lado do que descrevemos anteriormente. De facto a economia de mercado, digamos assim para evitar a carregada palavra capitalismo, cria nos seus casos extremos enormes diferenciações sociais. Um marcador que serve para comparar os países em função das diferenças entre as partes do sistema social é o chamado índice de Gini, que em Angola, segundo um estudo, atingiu em 2005 a taxa de 0,62. Este número revela uma das mais fortes diferenciações sociais do mundo. Quer dizer, os ricos são muito ricos e os pobres muitíssimo pobres. É resultado da tal ganância que leva alguns a enriquecerem a qualquer custo. Para esses, a ética é o mesmo que moldar estrelas em galáxias distantes, algo de absolutamente estranho e absurdo. Quer dizer, precisamos de imprimir ética no mercado e nos mercadores. O estado e todas as instituições criadas para o efeito têm de se preocupar com a necessidade de os processos sociais seguirem normas, expressas por leis, de alto rigor. E que os cidadãos, quaisquer que sejam, não só cumpram as leis mas se sintam honrados por as cumprir. Isso é ética. Algumas igrejas têm tido a preocupação de transmitir certos valores, assim como outras organizações voluntárias de grande mérito, o que leva cidadãos a cumprirem as normas sociais e a fazerem outros cumprir. No entanto, não podem ser só estas instituições a ditar regras de conduta imbuídas do respeito pelo outro e da solidariedade necessária. Temos de ser todos nós.

A instituição que é chave para a socialização do indivíduo e à qual incumbe em primeiro lugar portanto a aprendizagem das normas e da ética é a família. Infelizmente, muitos se têm pronunciado pela falta de valores que as famílias transmitem aos seus membros, estando a instituição mesma de família num processo perigoso de degeneração, com as mudanças sociais bruscas introduzidas pela urbanização desregrada e a mercantilização da sociedade, pela destruição brutal dos agrupamentos e lideranças tradicionais, com a fraqueza das instituições criadas depois da independência, e com os resultados morais negativos das prolongadas guerras que o país viveu. Tudo isso, além dos fenómenos mais modernos, como a globalização dos meios de comunicação, os novos interesses, e tecnologias em transformação permanente, faz com que as famílias se tornem débeis, e particularmente a camada dos mais velhos tenha perdido prestígio para educar os mais novos. Esta perda de estatuto social pelos mais velhos nas novas sociedades urbanas não foi compensada pela aquisição de outros valores ou pelo surgimento de instituições vigorosas. Daí se notar uma juventude um pouco perdida, vogando sem rumo pelas ruas, à espera que uma oportunidade caia do céu. Muitas vezes é a oportunidade para o crime a única coisa que surge à sua frente.

Nesse sentido, pertencemos a uma instituição que tem deveres imensos à sua frente na promoção da ética, uma nova ética. A universidade. E será esta a última palavra importante que vou esquadrinhar.

Universidade, universalidade. Não me atreverei a dizer que é o último bastião da ética ou que deveria sê-lo. Felizmente restam vários bastiões. A universidade pode ser um deles, apenas. Pela sua missão de abrir horizontes ao desejo de conhecimento, muito mais até que transmitir conhecimentos, pela propalada vocação de ensinar a estudar, e de aliar essa busca do conhecimento à pesquisa científica, a universidade é um factor por excelência do desenvolvimento. Este é o espaço ideal para se reflectir e debater a sociedade, o tipo de sociedade que procuramos, e os meios necessários para o atingir. Num estudo sereno e profícuo. Já é altura de nós reforçarmos a ética social, primeiro com o exemplo de seriedade e profundidade que tem de vir de cima, do corpo docente e dos responsáveis. Traumatizada por todas as vicissitudes por que passou, a sociedade olha com alguma desconfiança para as instituições e até para a nossa. Não quer dizer que seja verdade, mas é voz corrente que também na universidade se compram favores, acessos e oportunidades. É um sindroma do mal que afecta a sociedade, céptica em relação aos valores defendidos por outros, mas temos, não só de negar tais preconceitos, o que se vai fazendo no dia a dia, mas demonstrar pela prática que nem tudo está perdido, que existem baluartes onde a palavra honra é estimada, onde a honestidade é recompensada, onde o esforço abnegado tem prestígio. Todos nós, professores, nos queixamos de haver por parte dos estudantes, na sua maioria, a única ambição de obterem um título, sem a preocupação de ficarem realmente preparados para a vida activa. No entanto, se os estudantes têm tal percepção do que é a universidade e os seus mestres, cabe-nos demonstrar que os títulos que se adquirem sem esforço pouco valem e acabam por se esfarelar com um sopro de vento. Por outro lado, temos de levar ao conhecimento da sociedade os trabalhos aqui elaborados e que podem contribuir para a melhoria das condições de vida das pessoas e para o engrandecimento do país. Mas engrandecimento sem megalomania, engrandecimento com ética, respeito pela Natureza e, sobretudo, contribuindo para gerar as mesmas oportunidades para todos os cidadãos.

Se a procura de uma sociedade ideal é quimera do género humano, não faz mal ser um pouco utópico e esperar progresso quando ele é possível. Sobretudo na ética da sociedade, com um ser humano que não queira acumular em si tudo aquilo que os outros não podem possuir, guardando um pouco daquele espírito que nos primeiros anos da independência se concretizava na busca do homem novo. Dizemos hoje que era uma utopia, assim como o socialismo que pretendíamos construir. Ao menos era uma utopia generosa, em que cada um queria ser irmão do outro e não seu adversário. Havia uma tentativa de ética e de universalismo, e havia fraternidade.

Universalidade, universidade. Palavras longas como o tempo, feitas para durar e para servirem de exemplo. Sejamos, na Universidade Agostinho Neto, esse exemplo de trabalho, abnegação e humildade.

Pepetela
Luanda, 13 de Março de 2009






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